segunda-feira, 3 de março de 2008

Separando o mundo do "mundo"

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3:16).

"Por que Deus amou o mundo..."

Como é possível uma afirmação tão simples e clara ser obscurecida pela miopia das doutrinas evangélicas?

Sim, meu amigo, Deus amou – e ainda ama, posto que é imutável – o mundo, a ponto de sacrificar seu próprio Filho em favor dele. Filho este que viveu no mundo - para o mundo - e que também amou o mundo e dele se compadeceu. Já é tempo de limparmos as lentes embaçadas das doutrinas a fim de separarmos o "mundo" do mundo.

Vergonhosamente temos nos acovardado na tarefa de levar a Boa Nova da Graça da qual somos alvo por meio de Cristo Jesus, e pervertido a realidade dessa tarefa em virtude de não sabermos separar o mundo que Deus amou e ama, do mundo que Deus simplesmente abomina.

Uma igreja que tem tanto medo de se "contaminar" com um mundo que ela nem sabe definir, só poderia mesmo acabar tecendo pra si casulos de autopresunção e negligenciando a tarefa que lhe foi proposta. Nosso ambiente eclesiástico, tão tomado de legalismo com ares de graça e tão confuso em suas elucubrações teológicas, que não passam de construções mentais humanas a respeito de uma divindade, que acaba por ser definida como mero reflexo de suas próprias vaidades.

Aí, justamente nesse ponto, é que salta a vista o paradoxo: de tanto fugir do mundo, a igreja se torna vitima de sua própria miséria humana, e de tudo o que Deus desaprova, sucumbindo aos males do mundo, que na verdade não estão "no mundo" e sim na condição caída de cada ser humano. Não importando se este ser humano se encontra dentro ou fora de um templo construído de tijolos e argamassa. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, assim nos ensina Paulo, em sua carta aos Romanos.

Quando a igreja passa a negligenciar essa realidade e pretender-se superior aos demais pecadores por algum motivo outro senão o da própria experiência da graça de Deus, justamente aí, é que abre suas portas ao "mundo" do qual deveria procurar se apartar. O mundo das contendas de palavras, do orgulho, das disputas políticas que nada são além de pura vaidade e vontade de poder, do mundo que está cheio de si mesmo e de sua sabedoria humana, do mundo egoísta e soberbo que se vê como fim em si mesmo.

Acaba-se desenvolvendo apenas uma nova "casta" cultural, com uma linguagem própria (o evangeliquês) - uma "moda" própria (a terrível moda evangélica) e tantas outras características que pra nada aproveitam, senão para distanciá-la dos que ela deveria alcançar.

Enquanto a igreja equivocadamente se ocupa de manter-se distante daqueles a quem foi destinada a contemplar, e se engendra em sua miserável soberba e falta de fé – sim, pois não há outro motivo para temer o contato com o mundo que clama por redenção senão a absoluta falta fé no Espírito de Deus, que é em todo tempo um guia, protetor e consolador para todos aqueles que estão em Cristo – o mundo a quem Deus amou vai sendo condenado apesar de tudo já ter sido feito por Deus para que assim não fosse.

Caminhando assim não há senão um desvio do caminho, e mais que isso a negação do sacrifício de Cristo e de sua conseqüente graça redentora, já que por meio desse caminho torto, muitas pessoas deixam de tomar conhecimento Dele como Senhor e Salvador individual. Se aqueles que deveriam viver o amor de Deus a fim de refletir a glória da salvação e vida em abundância – pois para isso foram eleitos – chafurdam em trevas, quem então poderá ser testemunha viva da Verdade que está em Cristo?

Curitiba - Paraná

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